Abrem-se as cortinas

Assim caminha a desumanidade. “Noventa e nove acertos, nenhum elogio. Um erro, mil condenações”, diz o pregador em pleno sermão, que se pergunta contrariado: “Por que”?

“Quanta boa semente não chega a germinar em nós por faltar o calor de um olhar de admiração, de uma palavra amiga, estimulante? Quanto bem se omite por sermos tão miseráveis com um elogio ou reconhecimento a quem faz por merecer?”

Aquela voz bem impostada, meio aguda, com sotaque de um holandês falando claramente o Português, ecoava por todos os cantos, num grito de alerta. Era a voz do Padre Eusébio van den Aardweg, o guardião das almas de Capivari, meu doce amigo, no púlpito da Igreja Matriz de São João Batista, rodeado de mármores, gra-nitos e altares por todos os lados. No forro a pintura suigeneris do incomparável Nori Figueiredo e debaixo dela, nos bancos, uma igreja lotada de bocas abertas e ouvidos atentos. Eu era apenas um moço entre tantos, mas gozava da prerrogativa de sempre saber o que o padre iria falar e depois como sempre acontecia poder elogiar o belo sermão dele que era sempre um melhor que o outro.

“Deveríamos considerar como injustiça também perante a lei dos homens. É pecado deixarmos sem reconhecimento uma única ação positiva que seja. Que filho sabe elogiar pela comida temperada, pela roupa lavada e passada, pelo di-nheiro para as despesas? Que cidadão diz carinhosamente obrigado a um funcio-nário público quando é bem atendido? Tudo vira rotina e obrigação nesse mun-do em que ninguém agradece a ninguém, todos vivem subjugados ao espírito de competição, correria e ingratidão”, concluiu aos berros.
Verdade, mas para isso deveríamos crescer em amor e vencer a inveja, o ciú-mes, a timidez e o egocentrismo. Livres dessas amarras nós teríamos a cordialida-de de saber valorizar com sincero elogio o outro pelo bem que ele consegue fazer.

Assim o ano vira uma sucessão de meses, o mês uma sucessão de dias, o dia uma sucessão de horas, a hora uma sucessão de minutos. Os minutos uma su-cessão de segundos... Confesso ter usado propositalmente em excesso a palavra sucessão para denotar que também seremos sucedidos por outros, assim como sucedemos os que outrora viveram antes de nós.

Vale a pena viver assim?








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