Anotei na agenda de 1989,  durante uma aula de Psicanalise sobre a teoria de Freud. Até hoje guardo também grifado na apostila o que disse Bion, um respeitável psicanalista, criador de coisas incríveis como essa frase até hoje repetida no meio psicanalístico:




 “O analista deve estar na sessão sem desejo e sem memória”.




Nesse mundo online em que tudo tem que ser tudo ao mesmo tempo, eu me pergunto:  seria mesmo possível isso?



Como exatamente?



Tempo de reality show em que fala-se de si com auto complacência, como se a individualidade fosse protagonista diante de interesses coletivos maiores. Assim, cada um exibe-se como protótipo de algo incomensurável que soletrando títulos de livros e regras de comportamento o profissional da consciência mal consegue ser um diferencial entre essas propostas diferentes de vida.




Será que não será todos nós que deveríamos estar no mundo “sem desejo e sem memória”? Não atoa nos ensinam há milênios  os hindus, os budistas, os africanos, os indígenas, os gregos, os judeus e os evangelhos...





Mas, antes dessa pergunta bem pertinente, é preciso pensar um pouco e analisar mais a fundo o que é e o que não é aquilo que chamamos de memória.





Desde antes do nascimento, no nascimento, e, também, sobretudo depois do nascimento, nosso corpo é bombardeado de sensações corpóreas, como quente, frio, dor, fome, desconforto, prazer, desprazer, e assim vai, sucessivamente.




Para muitos, nesse caso, a memória seria compreendida como fiel depositária de todas essas sensações.




Quando crescemos adquirimos o poder da fala, e por esse ,meio um novo mundo se descortina, um universo mais amplo se revela. Por exemplo, a comunicação. Comunicar com o outro até não podermos falar era feita unicamente pelo corpo a corpo, sendo mediada por algo que possivelmente não nos toca diretamente. Porém, a partir da comunicação está também criado um novo mundo psíquico, o momento onde as palavras, juntamente com imagens e sensações, vão formando nossa memória.




Com o tempo nossas experiências de vida com nossos pais, mães, irmãos, amigos, professores, além de ir formando um arsenal de experiências, definem concomitantemente quem somos nós.
Então fazer essa pergunta pode ajudar muito nessa hora seria:






 “Qual a sua face antes de seus pais nascerem?”.





Há um elemento importante que compõe a experiência da memória que é a “atenção”.
A cada segundo, podemos prestar atenção em apenas uma coisa. Podemos fazer várias coisas ao mesmo tempo dizem alguns. Mas num segundo, ou numa fração de segundo, podemos fazer apenas uma coisa, pensar somente nessa coisa.




O pensar é a sucessão desses pensamentos ao longo do tempo. Se eles fazem ou não sentido a quem está pensando, é outro ponto importante, que fica para outra oportunidade.




Mas o processo aqui é fácil de entender. Quando escolhemos algo em detrimento de todo o resto, quando nossa atenção está direcionada num foco, nesse ínfimo segundo para algum lugar, alguma pessoa, alguma situação, ou algum outro pensamento, todas as outras possibilidades se fecham.




Essa seleção “do que pensar” pode ser atribuída ao nosso “desejo”. Toda seleção de alvo para um único foco fruto do “desejo”. Ele direciona tudo.




Podemos concluir que que quando olhamos para trás, no universo infindável de coisas que guardamos em nossa memória desde o nascimento, fazemos uma seleção?







Nossa atenção vai e seleciona os fatos e dados e cria aquilo que chamamos de “memória ou lembrança”.




Lembrança é, assim dizendo, nossa atenção selecionando pela atenção e pelo desejo aquilo que nos interessa, nos faz algum sentido e descarta aquilo que não nos interessa, que parece não servir para nada.




A memória, ou lembrança, é como conjugar o verbo “querer” no tempo passado. Toda vez que uma pessoa fala livremente do seu passado, está falando inevitavelmente de seu desejo no momento presente. Sempre está falando muito maior e mais profundo do que simplesmente lembranças. Fala do que gostaria de ter sido, do que gostaria de ser, do que essas lembranças ainda podem servir no presente.




Por isso, é bom frisar que uma lembrança, uma memória, nunca é ingênua. Ela tem sempre o propósito de ser a presentificação do desejo. Nesse caso seria mais fácil compreender o conceito se pensarmos numa frase que o filósofo alemão Nietzsche escreveu em sua “Quarta consideração extemporânea – da utilidade e inutilidade da história para a vida”.





Da mesma forma que inúmeras vezes somos dominados pelo desejo, somos dominados pelas lembranças, pela memória do passado.





E eis surgindo aqui uma terrível armadilha: muitas pessoas ainda acreditam que o passado tem vida própria. Imaginam que as pessoas não podem escapar de suas lembranças, quando na verdade não conseguem escapar de seus desejos.






Nesse caso, num outro post, vamos falar do amo (o Eu) que jamais deve se render ao seu escravo (o desejo), que sem isso não terá como assumir as rédeas do comportamento, da personalidade, da vontade, das ações, do destino de ninguém.






Como disse Nietzsche no livro Assim falava Zaratrusta: “Esta taça quer de novo esvaziar-se, e Zaratustra quer tornar a ser homem”. ... A praça pública e a multidão pareciam o mar quando se desencadeia a tormenta. ... Passado um momento o ferido recuperou os sentidos e viu Zaratustra ... O passado, a tormenta do homem”.






Nietzsche provoca finalizando: "Que buscamos nós? O descanso, a felicidade? Não, a verdade, mesmo terrível e má".






Fora disso não seria mais o cachorro que abana o rabo, mas o rabo que abana o cachorro.  

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