“Eu preciso, eu preciso de você
Nós precisamos sim, você de mim e eu de você.”
(Taiguara)





Sei bem o que é ter que pedir.




Olhando para trás me vejo andando de calças curtas pelas ruas da bucólica cidade de Capivari, no interior paulista, mundialmente chamada de "Cidade dos Poetas". 


Minha diversão na infância era pedir o que quer que fosse para abastecer o Lar de Jesus, orfanato que abrigava meninos do Estado inteiro, incluindo meu irmão Luiz Carlos e eu.


Minha maior diversão mesmo!!! Só que eu adorava pedir para quem odiava dar, puxar assunto com gente de cara feia e fazer rir quem estava chorando.





Sei bem o que é poder dar




A mesma alegria com que pedia naquele tempo, sei dar hoje a todos que posso quando me procuram e oferecer espontâneamente o melhor de mim num perene autopoliciamento.


Afinal. todos podemos com incrivel facilidade cair na malha fina da ciranda "eu e eu só eu por mim" onde forçocamente Deus se posicina contra todos.


Sinto dizer que sempre quando qualquer um de nós se esquece disso a vida passa uma rasteira e caímos na ponte funda e estreita da necessidade.



Pedir é algo inerente ao ser humano. Faz parte da sua contingência.






Mas, vamos falar de você?





Você acha difícil pedir ajuda, não acha?





Sinceramente? Com todo papo acima, eu também acho!





Deve ser, talvez, porque pedir ajuda envolve passar por cima do próprio orgulho de que ser ajudado transparece a nossa fraqueza, a nossa incapacidade de quem perdeu a batalha.




No meu caso específico,  que fui menino pobre criado em orfanato, dependi sempre da bondade alheia, hoje em dia, ter imagem de bem sucedido, indepente, poderoso transparece uma certa recompensa pelo passado e até dá alguma razoável satisfação pessoal dizer pra todo mundo que venci. 




Mas virou mexeu surge algo que balança o coreto e lá vamos nós ladeira abaixo de novo.




Voltando: quem nunca deu pra trás na hora em que precisou de uma forcinha?





Não existe pedido grande nem pedido pequeno.  Pedir é pedir.  Envolve ação generosa de quem tem coração aberto nessa hora tanto para se doar quanto para se abrir.




Nessa hora suamos frio, imaginamos mil situações forçando a coragem desaparecer e o medo se agigantar.




Não será que tudo isso faz as coisas parecerem mais complicadas ainda?




Pedir ajuda envolve se desarmar do poder de julgar interiormente os outros. E nos emaranhamos ainda mais quando julgamos suas reações, a situação em que se encontram e a resposta que vão nos dar.




Vivemos num culto ao individualismo, em que todos nos forçamos ao sucesso; assim um gesto de solidariedade e amor não é visto como solidário nem amoroso mas competitivo, num cenário em que o vencedor é aplaudido porque tem pra dar e o perdedor é vaiado porque precisa pedir.




Assim posto, quem topa estar no lugar do perdedor, daquele que admite precisar de ajuda?




Por isso a maioria de nós se gaba de poder dar (nem tão maioria assim), mas detesta o papel de ter que pedir ajuda. 




A gente tenta fazer quase tudo sem os outros, mas logo vem a vida e ensina que dificilmente isso é  posssível.




“Eu preciso, eu preciso de você
Nós precisamos sim, você de mim e eu de você.”, já cantou o Taiguara há 50 anos.




Piora muito, fica até mais doloroso pedir ajuda quando precisamos recorrer a alguém intransigente, mesquinho, estúpido, que não gosta de colaborar ou o faz de má vontade com julgamentos.




E se for aquele tipo de gente que ajuda mas depois cobra, taca na cara, fica contando para todo mundo? Aff.




Esse nos faz sentir que estamos incomodando, tomando o tempo e a paciência com assunto desinteressante. Fica olhando no relógio, fungando, com olhares desaprovantes. Só Deus nessa hora!





Então, aqui vai o principal motivo. 




Algumas coisas que pensamos e sentimos refletem nossas atitudes, já percebeu? Geralmente, quem não gosta muito de ajudar sente  mais fortemente essa indiferença dos que não gostam de ajudar.



Quem taxa, por exemplo, os necessitados de "aproveitadores" quando são abordados,  como não se sentirão "se aproveitando dos outros" na hora da sua própria necessidade? 




Falam assim: "é chato pedir"!




Nem me fale isso.





Sério mesmo.





Essas pessoas sentem mais medo de receber aquele torturante “NÃO”! Aquele som fatídico igual ao que elas orgulhosamente dão aos outros.




Só que o orgulho corta para os dois lados. Essas pessoas imaginam todas as negativas, as situações contrárias que podem acontecer com  elas,   revivendo a ajuda negada aos demais,  como elas fizeram ser para os outros.




Então vem a massacrante culpa, aquela vergonha torna-se inevitável.  A imaginação vai se transformando num monstro, principalmente se a colaboração tiver que vir de alguém que procuramos sempre, que já negamos ajuda; da mesma forma  também se for um estranho ou quem não é muito amigo e com o qual não mantemos contato frequente.





Até a beleza do mundo depende dos olhos de quem olha.




Nesse pior cenário vamos procrastinando, nos desautorizando e retardando o pedido, pois enxergamos mil problemas e nenhuma solução.




E aqueles com dificuldade de pedir ajuda porque acreditam que precisarão retribuí-la?





Sofrem carregando essa obrigação, imaginando que ficarão devendo para sempre. Nada disso. A roda da fortuna recompensa todo mundo. Calma! O que você não pode fazer você simplesmente não pode fazer.




Resumindo,  vença o orgulho. Acredite que para tudo tem um jeito. E o jeito para dar jeito é só dando jeito. 


Tem outro jeito?

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