Vamos cantar com o poeta Renato Russo?


“É preciso amar as pessoas
Como se não houvesse amanhã
Por que se você parar pra pensar
Na verdade não há.”
                                   

A edição noturna do Jornal da Globo Rio, o RJ2 do dia 23 de março trouxe uma reportagem do Pedro Bassan mostrando uma estatística previsivelmente assustadora, mas mesmo assim bem triste.

A Justiça do Rio de Janeiro registrou um aumento de 50% nos casos de violência doméstica durante o período de confinamento para evitar a disseminação do novo coronavírus.

Ali está posto que o movimento no Plantão Judiciário  surpreendeu inclusive as autoridades, pois em sua  maioria essas pessoas que buscaram ajuda da Justiça é de mulheres vítimas de violência doméstica.

 Nesse tempo de confinamento, quem tem princípios de respeito dentro de casa, quem já investiu nas boas relações de amor e carinho em tempos assim recebe a paga. 

MAIS AMOR E PAZ DENTRO DE CASA não surgem assim do nada, era preciso o investimento das pessoas em si mesmas para contribuírem para o coletivo familiar. Em confinamento parece que as diferenças entre pessoas que vivem debaixo do mesmo teto ampliam-se, ficam mais à flor da pele e, em casos que temos tido notícia, já beiram ao insuportável.

Essa aproximação que seria a base de um lar feliz, quando assim forçada  piora o que há de mais tóxico entre marido e mulher, entre pais e filhos e assim vai.

Vem dai que a violência se disfarça, com desfaçatez e hipocrisia,  num palavreado parecido com boas intenções, mas travestidas de insucesso. 

Então se diz,  "essa mulher é minha e se não for minha não será de mais ninguém", “brigas de amor não têm mágoas”, “tapa de amor não dói”, "não aguento mais você, só não largo porque você vai morrer sem mim"; quando um não entende o outro fica tudo na conta do desejo enorme de formar um lar eterno, de alimentar um amor hollywoodiano e de exibir uma família intencionalmente feliz.



Mas quem verdadeiramente é capaz de amar tanto assim e tão bem?


“Nessa mesma canção o intrigante Renato manda bem:
Você me diz que seus pais não lhe entendem
Mas você não entende seus pais
Você culpa seus pais por tudo
E isso é absurdo
São crianças como você
O que você vai ser
Quando você crescer?”


Há tempos o filósofo existencialista francês Jean-Paul Sartre escreveu que “a  violência faz-se passar sempre por uma contra violência, quer dizer, por uma resposta à violência alheia”.

Isso autoriza violentos a chamar de amor os seus atos esdrúxulos, tanto homem quanto mulher. Claro que as mulheres estão levando largamente o pior nessa quebra de braços que um dia vai acabar.

Em tempos de confinamento isso vem à tona de um jeito que quem entende um pouco do assunto já esperava, mas também nós temos sido surpreendidos.

Em tempos em que se pode usar o direito de ir e vir, a situação até se disfarça num limite recebendo visitas, fazendo pequenas fugas de casa, uma esticadinha na casa dos outros, na igreja, no futebol, na escola etc. Mas sem ninguém poder sair de casa, ufa!

“A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota”,  escreveu o mesmo Jean-Paul Sartre.

Essas tiradas filosóficas de Sartre assomam-se ao pronunciamento de João Paulo II: “ A violência destrói o que ela pretende defender: a dignidade da vida, a liberdade do ser humano”.

O confinamento é uma oportunidade incrível para sair de si mesmo. Hora de cessar a vontade de domesticar uns aos outros num lar, se respeitando o dom da liberdade alheia, o poder de escolha em alguma forma de pensar e de viver a própria vida.


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