Quando entramos num consultório à procura de orientação psicológica, estamos em busca de nós mesmos, mas será que todos sempre sabemos exatamente o que desejamos levar para casa? 

Vamos olhar essa linha tênua que, ao mesmo tempo em que une,  também separa o terapeuta e do cliente. 

Vamos acender uma pequenina vela nesse oceano noturno das perguntas por nós mesmos com a lente da psicanálise e da gestalt-terapia.

Lembrando que o rápido desenvolvimento das concepções irracionalistas na psicologia social têm base histórica tanto na crise política e ideológica da Segunda Guerra Mundial quanto na filosofia burguesa da Europa nos três séculos anteriores.

 Consideremos que após a Segunda Guerra Mundial os sociólogos e psicólogos sociais burgueses direcionaram seu objeto de estudo para os pequenos grupos sociais.

Vamos incluir aqui a Gestalt-terapia, que surgiu nesse tempo, por volta de 1956, mas eclodindo com força entre os anos 1960 e 1970. 

Dentro desse contexto, a sociedade estava revendo conceitos e passando por vários movimentos de mudanças, quebras de paradigmas e perplexa com o surgimento de novos patamares de inspiração.

Para entender melhor sobre a Gestalt-terapia, vamos dar uma olhada na psicanálise e no behaviorismo, pois deram origem às três principais correntes da psicologia. 

Mas elas possuem características e objetivos opostos.


A Psicanálise


Vamos combinar que a Psicanálise nasceu com os estudos de Freud. Ele observava, por exemplo, que pacientes quando apresentavam comportamentos histéricos, o faziam justamente por consequência e resposta de acontecimentos traumáticos antigos ou da infância. 


Dai surgiu o estudo do inconsciente.


No contexto foi criado o conceito clínico de fala livre, que é uma forma de fazer com que através de falar tudo livremente, o paciente possa apresentar aspectos guardados no inconsciente. 

Dessa forma, é possível entender o porquê de certos comportamentos. A partir do foco na explicação e entendimento da conduta atual do indivíduo.


O Behaviorismo


A segunda corrente dessa onda é o Behaviorismo, também conhecida como comportamentalista.

Behaviorismo é contra a introspecção e os aspectos filosóficos que a fundamentam. 

Portanto, essa corrente muito em voga até os dias atuais, trata do comportamento como algo funcional e reacional de qualquer ser vivo.

Se para ser ciência o objeto estudado precisa ser mensurável e observável, é claro que os sentimentos de um indivíduo não podem ser objeto da ciência. 

Isso faz com que o foco esteja no estímulo, causador de respostas no comportamento humano. 

Assim sendo, nesse raciocínio os behavioristas explicam que é possível prever e modular comportamentos.

Já na corrente humanista, surgida logo depois desses movimentos, não há acordo com o reducionismo do behaviorismo e tampouco com o determinismo da psicanálise.


A Gestalt-terapia


Dentro dessa terceira força dentro da psicologia, a corrente humanista, encontramos várias abordagens e uma delas é a Gestalt-terapia. 

Essa terapia aborda uma linha psicoterapêutica, que sofreu influências e foi se moldando ao longo das décadas até chegar na forma em que é trabalhada clinicamente agora no século 21.

Nesse contexto, a proposta deste modelo é associar praticas cognitivas com as emoções e sentimentos do paciente. Isso para que ele possa enxergar novos meios de encarar as situações difíceis da vida.

A Gestalt-terapia aborda aspectos filosóficos, teóricos e práticos, tendo 
 como filosofias de base a fenomenologia, o existencialismo e o humanismo


12 características da Gestalt-terapia.


1. Awareness

Esse termo traduzido do inglês significa “conscientização”, e é justamente esse o significado na Gestalt-terapia. 

Assim, deve-se tomar consciência de elementos como indivíduo/ambiente, seu próprio organismo, suas emoções e quem você é.

Referindo-se ai, em resumo, à capacidade de aperceber-se do que passa dentro e fora de si no momento presente, sempre nos três níveis simultaneamente: 

corporal 
mental 
emocional.


2. Aqui e agora


Enquanto a psicanálise pesquisa causas do passado a Gestalt-terapia foca no presente.

Ocupa-se de fazer valer o que se entende pelo termo aqui e agora: 

aqui significa lugar

agora singifica o tempo presente.


Antes, durante e depois, ontem, hoje e manhã; tudo isso está contido no conceito de aqui e agora.

Dessa forma, lembranças e projetos futuros deveriam, então, ser compreendidos como vivências atuais, nas circunstâncias atuais. 

Tudo está contido no agora, apresenta uma concepção de tempo, que não é a do tempo linear, trabalha com a ideia de presente e passado presentificados.


3. Atenção e aceitação da experiência


Consiste em atentar-se e aceitar todas as experiências, boas ou ruins, afinal todo ser humano passa por uma infinidade delas. 

Essa concepção inclui assumir que o que constitui o indivíduo como pessoa é a soma de todas as experiências.


4. Responsabilidade


Somos livres e responsáveis pelas nossas escolhas.  

Enquanto a psicanálise busca “culpar” de certa forma o comportamento presente com acontecimentos do passado, no Behaviorismo oO que realmente importa não é o que aconteceu no passado, mas o que podemos fazer com isso.


5. Ação


Junto com a responsabilidade, a Gestalt-terapia encoraja o paciente a escolher uma abordagem ou até várias delas. 

A ação é o principal objetivo. De acordo com a evolução das sessões são evidentes as mudanças de atitudes depois da tomada de consciência de questões antes despercebidas.


6. Consciência corporal


O costume das situações diárias desde que o ser humano nasce junto com o foco em objetivos externos fez com que o corpo em si passasse despercebido.

Muitas pessoas não conhecem a si mesmas e deixam a pressa atrapalhar a consciência corporal.

Essa consciência própria, de sentimentos próprios podem evitar muitos problemas como depressão, doenças físicas, psíquicas, psicossomáticas e conflitos internos.


7. Desenvolvimento pessoal


A Gestalt-terapia, assim como toda a corrente humanista da psicologia acredita que o ser humano tem uma potencial capacidade inata de se desenvolver. 

No entanto, essa linha não se atém a diagnósticos fixos e determinantes.

Cada indivíduo a cada instante está em constante mudança. Biológica, fisiológica e fisicamente somos programados para evoluir e melhorar. 

A Gestalt explora esse fato como alvo principal na terapia.


8. Existência precede a essência


Primeiro o indivíduo existe para posteriormente construir a sua essência. 

Ninguém é tímido definitivamente. Alguém pode ser assim na infância e desinibido na fase adulta. 

A expressão certa seria “estou tímido”. A timidez não faz parte da essência assim como todas as outras características.

O homem é um ser em construção e não possui uma essência rígida, acabada, sólida. 

Também não se prende numa essência predeterminada. Fatores externos mesclados com situações internas geram determinadas atitudes e assim vai. 

Todos os elementos da Gestalt trabalham para melhorar e encorajar boas ações para a vivência do sujeito em todos os aspectos.


9. Criatividade


A Criatividade abre um leque infinito de opções para tratar quaisquer situações. 

Geralmente a psicologia tende a generalizar pessoas, tipos, patologias e situações. O ajustamento criativo tem a finalidade de não se prender aos padrões e a tomar medidas necessárias.


10. Autorregulação organísmica


A Autorregulação organísmica consiste na capacidade do corpo de autorregular-se.  Quando algo não vai bem, o corpo fica doente. 

Essa manutenção acontece porque somos seres sociais, biológicos, psicológicos e espirituais.

O organismo possui uma automação em manter essas quatro dimensões saudáveis. 

Cada uma delas tem necessidades próprias e quando uma não vai bem, a carga é dividida pois funcionam como um todo.


11. Ciclo de contato


É a forma como nos relacionamos. Nem todo contato é bom e nem toda fuga é negativa. 

É preciso avaliar em quais circunstâncias o indivíduo exerce tanto o afastamento quanto a aproximação. Então, patologias podem se evidenciar nesse processo.


12. Relação horizontal entre paciente e terapeuta


O terapeuta está a serviço do dialógico, sem julgamentos. 

A Gestalt-terapia parte do princípio de que ninguém sabe melhor de si do que si mesmo. Assim, o terapeuta é visto como alguém que ajuda e guia o paciente.

Dentro de uma abordagem dialógica, o terapeuta tenta entender a pessoa em sua totalidade. 

Ginger e Ginger (1995) defendem a ideia de que, apesar de possuírem estatutos e papeis diferentes, terapeuta e cliente são parceiros que estão envolvidos em uma relação dual autêntica.

Nessa relação o papel que apontam como sendo do terapeuta é o de permitir e favorecer, de acompanhar o cliente, conservando a sua alteridade.

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