"A insistência é o nosso esforço, a desistência é o nosso prêmio. A este só se chega quando experimentou o poder de construir, e, apesar do gosto de poder, prefere-se a desistência. A desistência tem que ser uma escolha". (Clarice Lispector). 


Sem longas análises, estou cada vez mais propenso a crer que desistir é uma bela oportunidade quando estamos diante de alguma muralha objetivamente intransponível.

Você já percebeu com todo mundo que diz insista, persista, não desista, não sabe de nada? Pelo menos nada de você. Se estiver empurrando a jamanta morro abaixo ainda sobram alguns, mas morro acima, só você e Deus! 

As pessoas também dizem "sinto muito", "morreu tão cedo", "meus pesames", "descansou", e um monte de coisas num velória, enquanto os entes queridos do falecido choram e lamentam no fundo de alma, as pessoas apenas repetem palavras antigas e manjadas sem saber do que se trata de real na sua vida real. 

Manter é diferente de criar.

Mesmo assim lá vem sempre o bloco dos "deixa disso", mais animado que o do Zé Pretinho em peso, sempre com o mesmo refrão gritar no ouvido de todo mundo do mesmo jeito: Fica ai! Mantenha! Não se mexa. Resista.

Mas, para muito além do aspecto nu e cru dessa afirmação, há o sentido figurado do que  vem contido nisso.

Por exemplo, num relacionamento em que as pessoas vivem enganadas e engando-se mutuamente. Principalmente quando não há um chão real, algo para se apoiar e fazer florescer.

Um muro intransponível é o excesso de expectativas alimentado em via de vai e vem; promessas e sonhos unilaterais, vontades escusas de obtenção de vantagens que se aproximarem de interesse comercial disfarçado de amor incondicional.

O muro mais intransponível é atingir o outro captando a essência dele, a verdade intima dele, aquilo que ele esconde para ser aceito por nós.

Só assim podemos concluir com alguma certeza o que é e o que não é possível tanto esperar dessa pessoa quanto para oferecer algo que represente valor para ela.

Por isso, papo reto, compre a sua briga nessa guerra por ser você mesmo. 

Em troca, toda vez que pensar em desistir, olhe para o lado que realmente importa, o lado de dentro, e então se pergunte qual é a sua razão maior, o seu porquê, o motivo que fará de você uma pessoa mais forte e mais capaz do que qualquer desculpa para não se desafiar.

Muros intransponíveis geralmente estão dentro de nossa cabeça, nós os erguemos e somente nós podemos escalar cada metro dele.

Como?

Tope enxergar o que ainda não viu e nem conhece e pise na estrada,  certo de que pode ser melhor ou pior, mas fora isso não tem nada de mais.

Quando você pensar em desistir por causa do medo, olhe para tudo ao redor, e corajosamente se pergunte quando foi que você deixou de ser importante para si mesmo.

Quando foi que a imagem refletida do outro lado do espelho deixou de ser a sua, quando foi que opiniões, críticas e julgamentos de quem nunca realmente parou de verdade para olhar nos seus olhos invadiram a sua vida e domaram as suas escolhas dessa maneira?

E então deixe ir o peso do outro. Foque no que fortalece você. Mire no que te faz leve. E vida que segue.

O Quando você pensar em desistir, quando o barco virar e o mar estiver revolto demais, quando a única alternativa que restar de tudo isso for lutar ou morrer, agarre-se na sua fé, acredite no seu milagre, pule nas águas. E nade. Quando você pensar em desistir, justamente porque não sabe nadar, olhe para o mundo com gana de herói, com olhos de quem desafia o impossível e faz valer a pena cada segundo da vida.

 Se você pensar em desistir por causa das circunstâncias, se pergunte qual é o propósito de tudo, da onde vem o aprendizado, o grande legado, o motivo que lhe fará agradecer mesmo quando a tristeza vier. E então se concentre no lado bom de todas as coisas, na sabedoria da vida, na certeza de que amanhã é sempre outro dia e que não há sofrimento ou dificuldade que dure para sempre. Bora lá viver .

Quando você pensar em desistir por causa de si mesmo, se pergunte quem é você e qual é a sua missão nesse mundo. E então avalie se o desistir tem a ver com ser forte, sábio e consciente (porque às vezes desistir exige mesmo uma coragem imensa) ou se é só uma maneira covarde de fugir da batalha antes mesmo da luta.

E se for por falta de tentativa, e se for por medos e receios de não ser capaz, encontre dentro de si mesmo a força que lhe move a levantar da cama todos os dias. Bora lá.

Quando você pensar em desistir por causa do tempo, se pergunte o que realmente importa na vida: a direção ou a velocidade?

E então comece a olhar para todas as coisas com a curiosidade e a aventura da criança e a sabedoria e a experiência do idoso. Do tempo passado, pegue o que lhe faz melhor, inspire-se no que lhe faz sorrir, orgulhe-se das cicatrizes, colecione histórias, mas siga em frente. Do presente nasce o recomeço.

E o tempo nos ensina que nunca é tarde demais. Agarre-se na infinidade do agora, seja presente de corpo, alma e coração. Faça sempre o seu melhor. Seja o seu melhor. Não dê demasiada importância a um futuro que você nem sabe se vai chegar. Muito menos a um passado que se foi para nunca mais voltar.

Vista o seu melhor sorriso, confie na força da sua intuição. Arregace as mangas. Tire o sapato. Deixe o vento bater no rosto. Deixa rolar. Bora lá, só por hoje.


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