Lucas H. Rossi dos Santos e seu amigo Tonico Pereira

Essa coisa eu diria numa boa aos mais novos, em tom e ritmo de voz do Caetano Veloso, fixamente olhando feito Chico Buarque e meneando a cabeça como o Gonzagaguinha, tremendo de pressa como Tonico Pereira sem pretender dizer absolutamente nada como Tim Maia e Luiz Melodia. Poderia estar sentado num banco da praça em Pindamonhangaba, de preferencia sem sentir nenhuma necessidade básica, nem medo de me expressar e com a liberdade de um Sidarta Gautama.

Para meu querido filho, sua companheira Cacá e sua filha, nossa Malu, "a coisa mais linda que já vi passar". 

Guardo até hoje, e guardo bem, esse recorte publicado no Jornal do Brasil em 1985, quando eu cursava o penultimo ano de Teologia. Vale muito a pena transcrever. Da lavra do meu velho, querido e admirável amigo psicanalista Hélio Pellegrino:

"No princípio é o sonho. E, depois dele mas implicando-o, necessariamente —, é o contato, o contraste e o confronto com a estranheza das coisas. O movimento humano se faz da fantasia para a concretude do mundo. Temos que perder o macio inimaginável do sonho, sua diáfana gentileza de pés de lã, para ancorar no concreto. Temos que saltar de pára-quedas, na direção da realidade. Torna-se indispensável, nesta hora, um aparelho minimamente capaz de amortecer o choque contra a terra: tranco fundador. É, porém, ilusório supor que tal passagem possa processar-se sem ruptura — e sem vertigem. Machado de Assis, do alto de sua ironia, garante que é melhor cair das nuvens do que de um terceiro andar. Não estou seguro de que este aforisrna possa adequar-se, com propriedade, ao tema que examinamos. Os sonhos não são nuvens, mas a primeira pátria do homem. Cair deles é literalmente — perder o paraíso, vicissitude com certeza mais dolorosa do que partir uma perna, após a queda de um terceiro pavimento.

O poeta, o ficcionista dão o salto do sonho para o signo compartilhado. Existe, fora de dúvida, um sofrimento na agonia da criação artística, na medida em que ela é um parto — e um nascimento. Pulamos do avião, abandonando o grande bojo narcísico pela aventura de recortar em palavras, imagens e metáforas aquilo que é nosso mistério original. Não obstante, na dor universal desse processo de objetivação, por cujo intermédio o ser humano se eventra, para conhecer-se, o artista fica com a melhor parte. Ele consegue construir um sonho — ou um vôo — dirigido, cujo destino se consuma na obra de arte. O artista conquista e preserva, portanto, sua condição de fazendeiro do ar, permanecendo no território da semiótica — lugar onde o humano se embriaga da insustentável leveza do ser.

As coisas, contudo, se tornam mais torturadas e tortuosas — quando se trabalha a própria matéria da vida, na tentativa de fazer dela um sonho dirigido. O concreto, fora de nós, é transcendente e, por isto mesmo, terrível. Para segurá-lo — e domá-lo — é preciso abrir a guarda ou, mais precisamente, a brecha por onde a morte entra. O real é o mysterium tremendum, brasa viva que nos queima as mãos. 

O artista, com seu uniforme de amianto, converte as grandes queimadas da montanha em florestas de símbolos que ardem. As palavras promovem, com eficácia, a encantação do mundo. Elas nos ajudam a elucidar o real na medida em que, por afastar-nos dele, nos permitem conhecê-lo. A linguagem, em última instância, tece os fios de nossa pertinência ao Cosmo. Ela é mediação acolchoada de presenças ausentes, gentileza do Logos que nos poupa ao grande espanto. Já os místicos, desmesurados essenciais, se aplicam com indormida paixão à tarefa de encarar, no olho, a radiância do real. 

Eles invocam e convocam, na solidão da noite, o vazio — abolição da linguagem —, para albergar, no centro do vórtice espantoso, a presença inimaginavelmente esplêndida do real — diadema do poder de Deus.

O artista, na sua aventura criadora, não chega a tanto. Ele é mais modesto, enfrenta — sim — o real, mas simbolizado, mediado pelo signo. In bac signo vinces: com este signo, vencerás. O artista se encomenda aos poderes da linguagem, que aponta para o real, ao mesmo tempo que o oculta. 

O real é o impossível — diz Lacan numa estocada de mestre. Ele é silêncio, êxtase impronunciável, fornalha ardente da paixão de Deus, aterradora e esmagadora. O artista, espécie de santo de segunda mão, fica rasante à carnadura do real, aflorando-o sem deflorá--lo. A partir dessa proximidade ao coração selvagem da vida, transportado de amoroso espanto, ergue vôo, através da linguagem, no sentido de anunciar, comemorar e elucidar 

— a suprema dignidade do real.

O artista pela palavra, dá notícia da realidade, fala da sua presença, representa-a e, com isto, empalidece — ou amortece — sua desocultação. O místico, ao contrário, pela brecha escancarada e vazia de sua liberdade, abre lugar ao relâmpago do ser, não corroído pela função simbolizadora da linguagem. A palavra é sempre, por um lado, defesa contra o real, defesa legítima — ou legítima defesa. 

Ela nos permite contemplar as explosões nucleares do Sol, mas com óculos escuros. Quem quiser não usá-los, nesta emergência, corre o risco de ficar cego. Foi aliás, o que aconteceu a São Paulo, no caminho de Damasco. Ele ficou siderado e fulgurado pela luz da revelação do Real e, perdendo a visão, caiu — literalmente — do cavalo.

Lacan, sucessor da grandeza de Freud, desbravou tais questões com inigualável densidade. Ele nos mostra que, através da função simbolizadora, somos salvos da psicose — e da possibilidade do desastre psíquico. Nos casos de neurose, por exemplo, existe um relacionamento, no inconsciente, de conteúdos mentais já simbolizados ou representados. 

O neurótico, embora possa assustar-se e, até mesmo, aterrorizar-se com seus sonhos, tem sempre o recurso de acordar deles abrindo os olhos, seja literalmente, seja de maneira metafórica, através de sua elucidação interpretativa. Os sonhos são sempre estruturados como linguagem. Eles representam o desejo inconsciente e, na pior das hipóteses, vão surgir à consciência como sintomas.

No caso das psicoses, o problema é estruturalmente diverso. O psicótico tem áreas de sua experiência psíquica que ele não simbolizou, nem recalcou, mas foracluiu, segundo a terminologia lacaniana. O recalque implica uma prévia atividade simbolizadora. 

Quando esta não existe, o material rejeitado aparece à consciência sob forma real — não simbólica. A psicose, portanto, é uma impossibilidade de sonhar. Quem canta, seus males espanta — diz o velho brocardo. 

O sonho é, a seu modo, uma espécie de canção tecida de imagens, que nos salva do excesso de realidade. O psicótico, sem poder onírico, é soterrado por esse excesso e, sob seus escombros, carente de canto, sucumbe ao peso dos próprios males.

O artista mestre no sonhar e no dizer — escapa a esse duro infortúnio. Ele sonha e diz o seu sonho, e, nesta medida, ao conferir-lhe o cânon apolineo da beleza domada, conquista-o, sublima-o, resolve-o. 

O artista sonha de novo o seu sonho, quando o exprime, e, assim, consegue transformá-lo em canto geral. Arte é sonho dirigido, ofertado à comunhão dos homens, na medida em que paga o imposto da palavra para ingressar no circuito de intercâmbio social. 

O artista, ao modelar o seu sonho, socializa-o, insere-o no mundo, rompe sua abastança autárquica — e narcísica. 

Arte é sonho compartilhado, comunicado, dialógico. Não resta dúvida, porém, que o artista, ao transpor seu sonho para a linguagem de todos, sofre ai o doloroso impacto da constrição a que o sujeita a ordem do simbólico. As palavras e, de resto, quaisquer símbolos — são um código e uma álgebra. Elas operam a partir das leis do discurso, através de signos que se põem no lugar das coisas, sem a presença delas. 

Toda arte, portanto, é tingida de ausência, e fala sempre de uma pátria perdida. Toda arte é exílio: canção do exílio. Os poetas — Gonçalves Dias, Baudelaire, Manuel Bandeira — não me deixam mentir." 




F

 Em 1928 conheceu Fernando Sabino, seu colega de jardim de infância, de quem se tornaria amigo por toda a vida. Começou a escrever seus poemas em 1939. 

Um ano depois estreitou sua amizade com Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e Fernando Sabino, formando o grupo que veio a ficar conhecido como "Os quatro mineiros".[carece de fontes] Publica, pela primeira vez, um poema no jornal O Diário. 

Em 1942 ingressou na Faculdade de Medicina de Belo Horizonte. "Deixai-o", considerado seu primeiro poema significativo, foi publicado naquele ano na revista católica A Ordem. 

Um ano depois decidiu-se pela área da medicina psiquiátrica. Ainda nesse ano, viaja a São Paulo com Fernando Sabino, onde conhece Mário de Andrade, com quem inicia uma troca de correspondência que duraria até a morte de Mário, em fevereiro de 1945.

 Em 1944, com Wilson Figueiredo, Simão Viana da Cunha Pereira, Otto Lara Resende, Francisco Iglésias e Darcy Ribeiro, editou o combativo jornal clandestino Liberdade. 

Foi um dos fundadores da União Democrática Nacional (UDN). Participou do Primeiro Congresso de Escritores, realizado no Teatro Municipal de São Paulo em 1945, e colaborou regularmente no suplemento literário do periódico O Jornal, no Rio de Janeiro. 

Após concorrer, pela UDN, ao cargo de deputado federal, em 1946 desligou-se do partido e fundou a Esquerda Democrática, ligada ao Partido Socialista Brasileiro. Conhece, no Rio de Janeiro, Mário Pedrosa, o responsável, anos mais tarde, por sua presença na fundação do Partido dos Trabalhadores (PT). 

Iniciou a prática psiquiátrica em 1947 no Instituto Raul Soares, instituição para tratamento mental de Belo Horizonte. Capitaneou uma iniciativa editorial, a revista Nenhum, que teve um único exemplar, e publicou, pelo grupo literário Edifício, formado por Wilson Figueiredo, Autran Dourado e Sábato Magaldi, um livreto com dois poemas: "Poema do príncipe exilado" e "Deixe que eu te ame".

 

Em 11 de dezembro de 1948 casou-se com Maria Urbana Pentagna Guimarães, com quem permaneceria casado por quarenta anos e teria sete filhos. No ano seguinte nasceu Maria Clara Guimarães Pellegrino, a sua primeira filha. A mais famosa filha, a atriz e professora de teatro Dora Pellegrino, nasceu em 1960, no Dia Internacional da Mulher.

 

Em 1952 mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, onde iniciou a análise didática com Iracy Doyle e trabalhou como redator no jornal O Globo. Em 1953 colaborou no semanário 2Flan, onde conhece o escritor Nelson Rodrigues, outra das grandes amizades de sua vida. Abriu um consultório psicanalítico com Hélio Tolipan e Ivan Ribeiro e, com a morte de Iracy Doyle, reinicia o processo de análise didática, agora com Catarina Kemper, com o propósito de tornar-se psicanalista, o que ocorre em 1963.

 

Nesta época, o apartamento de Hélio Pellegrino, no Jardim Botânico, se tornou ponto de encontro de intelectuais e artistas. Fernando Sabino lançou O Encontro Marcado, romance no qual o médico Mauro Lombardi é inspirado em Hélio.

 

Em 1964 Hélio Pellegrino sofreu uma isquemia coronária, da qual se recuperou. Trabalhou de 1966 até fins de 1968, no jornal Correio da Manhã. Em congresso na cidade de Santiago do Chile, apresentou sua tese "O pacto edípico e o pacto social", de grande repercussão no meio psicanalítico.

 

Em 1968, com o endurecimento da ditadura militar no Brasil, passou a participar da política e tornou-se respeitado por estudantes e líderes da movimentação política libertária desses anos, sendo visto por alguns como porta-voz dos intelectuais.[carece de fontes] Discursa na "Passeata dos Cem Mil", e participa da Comissão dos Cem Mil. Em 1969, mesmo ano em que perdeu seu pai, foi preso e por dois meses — sendo mantido primeiro no Regimento Caetano de Farias e, posteriormente, no Primeiro Batalhão de Guerra - sob a acusação de líder comunista.

 

Em 1970 sofreu um enfarte no miocárdio. No ano seguinte, já recuperado, surge, a partir de conversas com Catarina Kemper, a ideia da Clínica Social de Psicanálise. Visando sua realização, "Encontros Psicodinâmicos". Em 1973 inaugurou com um grupo de psicanalistas a Clínica Social de Psicanálise, instituição pioneira de atendimento gratuito que visava a integração entre psicanálise e sociedade.

 

Casou-se em 1974 com a física Sarah de Castro Barbosa, com quem ficou por sete anos. Em 1978 assumiu por quatro anos, com João Batista Ferreira e Jochen Kemper, a direção da Clínica Social, onde desenvolveu um trabalho de integração entre a clínica e a comunidade da favela do Morro dos Cabritos.

 

Publicou o ensaio "A dialética da tortura: direito versus direita", e iniciou colaboração, por dois anos, em O Pasquim. Em 1979 escreveu, por cinco meses, para o Jornal da República.

 

Na década de 1980 aderiu, com Mário Pedrosa, Lula, Plínio de Arruda Sampaio, Antonio Candido, Apolônio de Carvalho e Sérgio Buarque de Hollanda, entre outros intelectuais, ao manifesto de fundação do Partido dos Trabalhadores, o PT. Naquele ano, na PUC-Rio, durante o seminário “A psicanálise e sua inserção no modelo capitalista", teve a crise de Hélio Pellegrino e Eduardo Mascarenhas com a Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro. Motivada pela denúncia do apoliticismo da instituição e pelo fato de ela ter, entre seus quadros de candidatos a analistas didatas o médico e revelado torturador Amílcar Lobo. Tal crise se estende por dois anos, e culminou com a expulsão de Mascarenhas e Pellegrino, reintegrados somente por decreto judicial.

 

No ano seguinte formou, com Carlos Alberto Barreto, um núcleo antiburocrático do PT, o Clube Mário Pedrosa, frequentado por diversos intelectuais e artistas. Retomou seu casamento com Maria Urbana, e lançou, em parceria com Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino o disco-recital Os 4 mineiros.

 

Em 1982 iniciou colaboração por três anos e meio com o jornal Folha de S.Paulo, e no ano seguinte integrou a Comissão Teotônio Vilela Para as Prisões, do grupo Tortura Nunca Mais.

 

Em 1984 passou a escrever quinzenalmente no Jornal do Brasil. Juntamente com Frei Betto e Fábio Lacombe, criou o "MIRE, Mística e Revolução", grupo de estudos e orações. Conheceu a escritora Lya Luft, com quem se casaria nove meses mais tarde.

 

Na madrugada de 23 de março de 1988 Hélio Pellegrino morreu, vítima do problemas cardíacos. Ainda neste mesmo ano a Editora Rocco lançou a coletânea de artigos A Burrice do demônio, uma seleção de suas colaborações na imprensa.

 

Obras publicadas postumamente

Em 1992 a família Pellegrino doou o arquivo do escritor para a Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro.

 

Um ano depois foi publicada sua seleção de poemas Minérios domados, pela Editora Rocco, organizada por Humberto Werneck.

 

Em 1998 a coleção Perfis do Rio, da Editora Relume Dumará, lançou Hélio Pellegrino, a paixão indignada, de Paulo Roberto Pires.

 

Em 2003 a Editora Planeta publicou o livro Meditação de Natal, com texto de Hélio, e em 2004 a Editora Bem-Te-Vi publicou Arquivinho de Hélio Pellegrino e a editora Planeta Lucidez Embriagada, com organização de Antônia Pellegrino, neta do autor.

 


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