(DEIXANDO PRÁ DEPOIS, Fermino Neto – Nov. 1983:

 

Em deixando prá depois,

prá amanhã, prá depois de amanhã,

vou verificando que não vesti a toga,

não vibrei as cordas,

não rufei os tambores,

não teci a renda,

não toquei os sinos,

não entoei os hinos.

 

Em deixando prá depois,

prá amanhã...

descubro que não naveguei os mares,

não cinzelei o bronze,

não lavrei a prata,

não modelei o barro,

não lapidei a pedra.

Em deixando prá amanhã,

não escalei a montanha,

não ampliei o horizonte.

 

Em deixando prá depois,

prá amanhã,

não perdi o excesso de peso,

não abandonei o cigarro,

não diminui o álcool.

Em deixando prá depois,

não beijei o beijo,

não chorei o pranto,

não velejei o barco,

não pesquei o peixe,

não reparti o lucro,

não estendi a mão.

 

Em deixando prá amanhã,

não olhei o céu,

não alcei o voo,

não sonhei o sonho,

não plantei o trigo,

não colhi o fruto da terra,

não orei a prece,

não vivi a vida,

VOU PAGAR O PREÇO.

 

 

 


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